Chegada a Berlim. Encontro meia dúzia de meses depois de um rendez-vous de três quartos de hora em Lisboa...
Ed – Olha, o puto. Tanto cabelo branco? This is not New York, but this is Berlin. Willkommen Sie!
Jack – Estou velho. Sinto-me com mais de mil anos. Mas dizem-me que os cabelos brancos me dão um certo charme. Mulheres e homens. Ajudas-me a levar esta mochila de escuta?
E – Olha, o escuteirinho! Não eras tu que não gramavas aquilo? "Sempre alerta para servir" é coisa de subordinação à autoridade...
J – Traumas. Levei porrada, tinha que ir à missa e andar com um uniforme parolo. Mas era sempre eleito secretário da equipa, às vezes guia.
E – Acho que darias mais para a escrita do que para liderar um bando de miúdos barulhentos.
J – Ya. Mas mudemos de assunto. Estamos em Berlim, não na Póvoa de Forno ou na Palhaça.
E – Olha, digo-te que tenho saudades do Abrigo.
J – O Shelter agora está fechado. Depois da rusga, ninguém pegou mais naquilo. Má fama…Ninguém o ama. Sabes como é!
E – Nem as pegas? Pena… As empalhadas e as arepas eram um must.E o karaoke... Lembras-te? O CP Garanhão, cantaste o "I Feel Good". Brown, James Brown.
J – Falemos é do futuro. Aborrece-me a nossa relação começar a cingir-se a memórias, a recordações da treta. Berlim não é o futuro, o El Dorado dos artistas?
E – Berlim é o que tu quiseres. Podes aprender turco para além do pita shoarma com miúdas belíssimas, cuspires em cima das estátuas do Marx que ninguém te faz mal. Construir e destruir novos muros. Ires a uma galeria de arte e dizeres que és um happening chamado “Visitante de doentes e de exposições”. E a Merkel…
J – Olha, conheces a Lúcia Sigalho? Viveu na minha casa da Bica. Aparecem na nossa caixa de correios cartas das Finanças a toda a hora e convites para inaugurações de expos. Já pensei rapar os cabelos, fazer-me passar por ela e andar a comer à pala desses eventos sociais. Inovar, desenrascar-me em tempos de crise. Tenho que sobreviver naquela cidade…
E – Vou-te levar ao bunker onde trabalhei.
J – Pera aí, Ed Ude. Vamos levar as cenas a casa.
E – Qual casa? Eu moro na rua.
J – Porque não me disseste?
E – Tenho wireless e tudo. Sou um sem-abrigo hi-tech.
J – Estavas sem guita para a renda? O dinheiro dos pratos gourmet não chegava?
E – Também, mas quis experimentar sensações novas. Andava a passar-me com a zona de conforto que era o meu quarto. Precisava de respirar.
J – Não apanhas rapa?
E – Fazemos umas fogueiras às vezes. Outras vezes bebo aguardente para me esquentar.
J – Agora também bebes coisas pesadas?
E – Digamos que tenho vinho a estagiar no meu corpo.
J – Um estágio de quanto tempo?
E – É tal como os precários. Sempre a estagiar.
J – Ah, ah. Mais vale rir do que... Então, e as artes?
E – Agora só me dedico à arte de viver. Essas artes de que falas são tudo artifício, construção. Cansei-me. O contrário da liberdade.
J – Mann, Herr Conceição, onde deixo, então, as minhas cenas?
E – Vamos passar pela Füsserstrasse. Deixamos lá as coisas com o Sigmund, o meu companheiro de strasse e de traça.
J- Quem é? O Freud não ressuscitou, certo?
E – Ah, ah, cromo. Não. O Sigmund diz que é louco, mas ao pé de nós é uma convençãozita, uma viagem para turistinha.
Já a caminho do bunker, depois de deixar as tralhas junto às barbas do Sigmund, que dormia um sono profundo.
E – E a Rosselini?
J – Penso que está a hibernar. Morreu para o mundo. Pelo menos para o meu mundo. Nunca mais me respondeu às chamadas.
E – Se calhar, as chamadas do Outro, com maiúscula, são prioritárias. Senão mesmo exclusivas.
J – Não sejas mauzinho, seu ateu tardio. Olha, por falar nisso, no outro dia fui ver a Morte de Judas à Cornucópia. Era um monólogo com o Dinarte. A versão de Judas Iscariote da entrega de Jesus, pela voz do próprio, do apóstolo traidor… Ou nem tanto. Muito contemporâneo, com Judas a dizer da sua justiça, a ridicularizar os milagres e Simão Pedro.
E – Ahh, não te disse. Meti-me de novo no teatro. Agora andamos a fazer um Brecht.
J – Pera aí. Não tinhas deixado as artes?
E – Descobri que o teatro é compaginável com a arte de viver, ars vivendi, a única que aceito hoje para mim.
J – Não sei é se eu aceito essa contradição. Essa justificação parece um pouco forçada.
E – Forçada é a mentira. O teatro é libertação, é verdade, é pureza.
J – Hei, Ed, és mesmo tu? Mas tu converteste-te a alguma seita?
E – Seita de Meita, o Onanismo ao Poder, JacKerouac.
J – Vejo que estás ao rubro. Maio de 68 tardio… em 2012?
E – Rubro estava o sangue da minha Marie Avant La Lettre depois de ter ido à máquina... à guilhotina. Coitada!
J – Bem, ‘tou à rasca. Preciso de mijar. Onde é o WC mais próximo?
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