Desfaço-me de preceitos
... para acender o cigarro e ouvir um fado emanar de uma qualquer janela
Ed – A máquina de escrever?
Jack – Atirei-a pela janela! Estava vazia de palavras. (Pausa). E eu cheio delas.
E – Entramos? Cá fora está frio!
J – Ah, Ed, o frio nunca fez mal a ninguém, pelo menos não aqui na Bica. Tens assim tanta ânsia de entrar?
E – Tenho os pés frios e já não comemos uma empalhada faz tempo.
J – Ok, bebes um fino ? Ou vinho? Agora bebes mais cerveja, não?
E – Quem é a miúda gira que te sorriu, Jack?
J – Não sei! Ela está sempre aqui. Sorri a todos! Prefiro manter o glamour de não saber quem é!
E – Sempre aqui?
J – Ya!
E – Já te tornaste num autóctone!
J – Até mudei de nome.
E – E a mercearia?
J – Voou! Não queria estar mais comigo. Antes, aprendeu as palavras como “pseudo” e “ludibriante”
E – Atirou-tas à cara e foi-se?
J – Deu-me um beijo antes e pediu desculpa com os olhos! Dei-lhe asas e ela… tu sabes!
E – Sei, mister Jack, sei. É sempre assim, espremem-te e depois flutuam para longe. Dizem-te que és grande demais, que não te querem atrasar. E que não lhes damos atenção. Pausa. No fundo, são elas que empurram e nem se apercebem…
J – Mas a melancolia não é maldita, a felicidade é que é.
E – Proust a isso, Jack.
J – Já paravas de me chamar Jack!
E – Olha lá, e o bacano da guitarra? Já bazou?
J – É só às terças. É como por lá, pelas tuas bandas. Também não é só às terças?
E – Ya, é, é!!! E mais…?
J – Mais, menos, more, less.
E – Pára lá com os teus jogos de palavras, Jack! Não tenho aqui o gravador de MP3.
J – Não.
E – Não, partiu-se no voo! É sempre a mesma merda! E como se eu não soubesse! Atiram-te com as malas, estão-se a lixar!
J – Se calhar são mal pagos e vingam-se nos burgueses!
E – Burguês és tu, puto semi-alface que vive na zona burguesa-ó-fashion-cultural! Vim numa low-cost! Agora é como andar de táxi! Só falta é a conversa com o piloto sobre o Benfica ou Sporting! Ou melhor, Manchester!
J – Já ouviste falar no António da Bica?
E – Esse não és tu? Tu é que disseste que até já tinhas mudado de nome! O que é que o tipo faz?
J – É a encarnação do António d’ “A Janela”, do Pêra! Parece que saiu directamente da TV pr’á Bica.
E – E além disso, o que é que ele tem de especial? Fode a vizinhança toda?
J – Isso e muito mais. O tipo é poético.
E – Cá para mim o António és tu. Ou então só existe na tua cabeça. Andas a escrever algo novo?
J – Não, o gajo existe mesmo! Ainda o vamos ver hoje entrar pela porta! E a tua Marie A?
E – Assassinei-a! Ficou velha – Já não escrevia nada! Perdeu a juventude, já nem álcool lhe valia.
J – Era uma empalhada e dois finos, s.f.f.
E – Agora também “micas” empregadas de mesa? Isso é mais eu do que tu!
J – Ajudei-a uma vez com as compras. Foi só isso!
E – E ela contou-te a vida toda!
J – Shhhh. Tem um amante e um namorado que lhe bate. Que merda! Apetece-me esmurrar o nariz ao tipo sempre que o vejo.
E – Violência, mister Jack? Vindo de ti, nunca pensei. Disseste amante? Não me digas que és tu? Agora dedicas-te a algo mais do que às tuas folhas amarelas onde rabiscas romances inconclusivos? Ou andas a precisar de inspiração? O absinto à tampa já não te ajuda?
J – Eu não sou príncipe encantado.
E – Ou andas a espreitá-la pela janela? Cá para mim ela nem existe.
J – Quem gosta de observar pela janela és tu! Observar e mijar do 4º andar!
E – Oh, isso já foi há anos… Já não sou puto rebelde cheio de lascívia.
J – Agora é só lixívia.
(Silêncio)
(Gargalhadas)
J – Adivinha quem acaba de entrar?
E – O António da Bica? Não vejo ninguém.
J – Não, o Tó Trips. Deve cá vir deixar o novo álbum pata deixar a tocar.
E – Tó é de António, não?
J – Deve ser!
E – Já o entrevistaste para a tua “Super Educativa”?
J – Não, apenas cruzámos olhares algumas vezes. Somos as caras da Bica.
E – Uhhh… Pseudo! PEOPLE ARE STRANGE, WHEN YOU ARE STRANGER.
J – FACES LOOK UGLY WHEN YOU ARE ALONE
E – Ainda tocas guitarra?
J – Pouco. Os dedos doem-me no Inverno. Tu sabes!
E – Hum!!!
J – Obrigado
E – Gracias
J – Não devias dizer DANKE SHÖN?
E – Isto é a Bica, não é Berlim.
J – Bicarlim…
E – Proust, Jack! Ao surrealismo!
J – Ao arroz e batatas!
E – A ti, Jack, e à Bica!
J – Já paravas de me chamar Jack.
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