quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Conversa #1

Numa indústria de sequelas baforentas
A café queimado.
Num buraco alado,
Num céu sem fundo,
Onde os foguetões-do-amor se esbatem
enternecidos pelas luzes da cidade,
Jaze:
O tumulto reivindicador de uma
saudade perdida.
Num contra a parede
Sem efeitos secundários
despejo o meu ego
e
Jack aloja-me na cabeça
uma ideia.

Desfaço-me de preceitos
preconceitos, pré-ó-qualquer-coisa
ditado pelo taxista que me conduz à Bica.

"Toma lá disto,
"Desfaça-se por aí, oh turista maldito, despeja os bolsos que este pais precisa"
- diz o Taxista.

Ed - Obrigado pela boleia - e meia dúzia de palavras-poema, porque é sempre lindo ouvir um taxista às 2h da madrugada.

Jack, espera-me na rua como quem espera em Alfama por lume...

... para acender o cigarro e ouvir um fado emanar de uma qualquer janela

Ed – A máquina de escrever?

Jack – Atirei-a pela janela! Estava vazia de palavras. (Pausa). E eu cheio delas.

E – Entramos? Cá fora está frio!

J – Ah, Ed, o frio nunca fez mal a ninguém, pelo menos não aqui na Bica. Tens assim tanta ânsia de entrar?

E – Tenho os pés frios e já não comemos uma empalhada faz tempo.

J – Ok, bebes um fino ? Ou vinho? Agora bebes mais cerveja, não?

E – Quem é a miúda gira que te sorriu, Jack?

J – Não sei! Ela está sempre aqui. Sorri a todos! Prefiro manter o glamour de não saber quem é!

E – Sempre aqui?

J – Ya!

E – Já te tornaste num autóctone!

J – Até mudei de nome.

E – E a mercearia?

J – Voou! Não queria estar mais comigo. Antes, aprendeu as palavras como “pseudo” e “ludibriante”

E – Atirou-tas à cara e foi-se?

J – Deu-me um beijo antes e pediu desculpa com os olhos! Dei-lhe asas e ela… tu sabes!

E – Sei, mister Jack, sei. É sempre assim, espremem-te e depois flutuam para longe. Dizem-te que és grande demais, que não te querem atrasar. E que não lhes damos atenção. Pausa. No fundo, são elas que empurram e nem se apercebem…

J – Mas a melancolia não é maldita, a felicidade é que é.

E – Proust a isso, Jack.

J – Já paravas de me chamar Jack!

E – Olha lá, e o bacano da guitarra? Já bazou?

J – É só às terças. É como por lá, pelas tuas bandas. Também não é só às terças?

E – Ya, é, é!!! E mais…?

J – Mais, menos, more, less.

E – Pára lá com os teus jogos de palavras, Jack! Não tenho aqui o gravador de MP3.

J – Não.

E – Não, partiu-se no voo! É sempre a mesma merda! E como se eu não soubesse! Atiram-te com as malas, estão-se a lixar!

J – Se calhar são mal pagos e vingam-se nos burgueses!

E – Burguês és tu, puto semi-alface que vive na zona burguesa-ó-fashion-cultural! Vim numa low-cost! Agora é como andar de táxi! Só falta é a conversa com o piloto sobre o Benfica ou Sporting! Ou melhor, Manchester!

J – Já ouviste falar no António da Bica?

E – Esse não és tu? Tu é que disseste que até já tinhas mudado de nome! O que é que o tipo faz?

J – É a encarnação do António d’ “A Janela”, do Pêra! Parece que saiu directamente da TV pr’á Bica.

E – E além disso, o que é que ele tem de especial? Fode a vizinhança toda?

J – Isso e muito mais. O tipo é poético.

E – Cá para mim o António és tu. Ou então só existe na tua cabeça. Andas a escrever algo novo?

J – Não, o gajo existe mesmo! Ainda o vamos ver hoje entrar pela porta! E a tua Marie A?

E – Assassinei-a! Ficou velha – Já não escrevia nada! Perdeu a juventude, já nem álcool lhe valia.

J – Era uma empalhada e dois finos, s.f.f.

E – Agora também “micas” empregadas de mesa? Isso é mais eu do que tu!

J – Ajudei-a uma vez com as compras. Foi só isso!

E – E ela contou-te a vida toda!

J – Shhhh. Tem um amante e um namorado que lhe bate. Que merda! Apetece-me esmurrar o nariz ao tipo sempre que o vejo.

E – Violência, mister Jack? Vindo de ti, nunca pensei. Disseste amante? Não me digas que és tu? Agora dedicas-te a algo mais do que às tuas folhas amarelas onde rabiscas romances inconclusivos? Ou andas a precisar de inspiração? O absinto à tampa já não te ajuda?

J – Eu não sou príncipe encantado.

E – Ou andas a espreitá-la pela janela? Cá para mim ela nem existe.

J – Quem gosta de observar pela janela és tu! Observar e mijar do 4º andar!

E – Oh, isso já foi há anos… Já não sou puto rebelde cheio de lascívia.

J – Agora é só lixívia.

(Silêncio)

(Gargalhadas)

J – Adivinha quem acaba de entrar?

E – O António da Bica? Não vejo ninguém.

J – Não, o Tó Trips. Deve cá vir deixar o novo álbum pata deixar a tocar.

E – Tó é de António, não?

J – Deve ser!

E – Já o entrevistaste para a tua “Super Educativa”?

J – Não, apenas cruzámos olhares algumas vezes. Somos as caras da Bica.

E – Uhhh… Pseudo! PEOPLE ARE STRANGE, WHEN YOU ARE STRANGER.

J – FACES LOOK UGLY WHEN YOU ARE ALONE

E – Ainda tocas guitarra?

J – Pouco. Os dedos doem-me no Inverno. Tu sabes!

E – Hum!!!

J – Obrigado

E – Gracias

J – Não devias dizer DANKE SHÖN?

E – Isto é a Bica, não é Berlim.

J – Bicarlim…

E – Proust, Jack! Ao surrealismo!

J – Ao arroz e batatas!

E – A ti, Jack, e à Bica!

J – Já paravas de me chamar Jack.


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