Jack – Aviso já que não te quero ver.
Ed – Há pouco para ver. Perdi a cabeça.
J – Literalmente?
E – Sim. Eduardo Mãos de Tesoura “perdeu” a cabeça por iniciativa própria.
J – Parece um título de notícia bizarra. Onde pára a tua pobre cachola?
E – Vendi-a no mercado no sábado passado. A uns capitalistas que andavam à procura de cérebros. Olheiros de cérebros com olhos de visionários…
J – Esse negócio de cérebros… Próximo passo: Quando vendes o pescoço?
E – Para que serve um pescoço? Já topaste que o pescoço ainda é menos requisitado do que o rabo, quando a malta se atira ao frango?
J – Eheh. E eles não se assustaram com as tuas big hands?
E – Nada disso, disseram-me “fizeram um óptimo serviço, foram competentes q.b.”.
J – Olha, afinal quero mesmo ver-te. Liga a webcam.
E – Não tenho câmara. Até parece que estás a duvidar da veracidade da história.
J – Na verdade gosto de ver corpos dilacerados.
E – Que imagem poética e ao mesmo tempo que pensamento tão psycho, Jack! Vai ao caixote de lixo mais próximo ver se encontras por lá a minha cabeça. Talvez a possas vê-la em directo. Ou andará ela a rolar por aí, como aquela do Bob Peru no Wild At Heart?
J – Oh, Ed, vai ver se eu estou na China.
E – A trabalhar numa fábrica cinzenta com criancinhas cinzentas, quinze horas cinzentas por dia cinzento?
J – A estar lá, talvez já só seja um daqueles robôs como aqueles que a FoxxConn encomendou para substituir os humanos na linha de produção para poupar guita. E talvez já não tenha sensibilidade humana para olhar para aqueles meninos e achar que estão a ser explorados e violentados.
E – Deixa-te de balelas políticas e conta-me como foi, então, a Páscoa na Póvoa do Forno.
J – Oh, contei-te parte por sms. O resto é aquilo que sabemos: a cruz familiar, a cruz de ter nascido numa família que esperava que fosse um bom cristão como eles. Saí-lhes uma peça de roupa com defeito. Beijei os pés do Cristo para não me chatearem, depois de ter pensado fazer o contrário por coerência. Parece que custou menos do que se não beijasse e estivesse lá apenas de corpo presente. O cinismo compensa socialmente. É triste, mas eles preferem isso a terem que se confrontar com a peça de roupa, engelhada, com defeito. Voltando aos pés do homem, pareceu-me a parte do corpo menos acarinhada. Acho que tive piedade dos pés dele. Ou d’Ele, como dizem eles (com minúscula).
E – E topaste se alguém lhe beijou a “zona pública”?
J – Deu-me ideia que é a parte preferida dos teus conterrâneos, Ed Ude.
E – Sempre achei que havia ali muita gente reprimida… e fixada n’Ele.
J – Enxugar-lhe as lágrimas dos olhos, beijar as partes baixas para ver se realmente o excitam e ressuscitam. Deve ser isso.
E – E Cristo ressuscitou, Aleluia!, Aleluia!?
J – Eles dizem que sim, mas acho que não “suscitaram” o estímulo suficiente para o homem ressuscitar. Pelo menos, não o vi a largar a cruz para se fazer à vida, literalmente.
E – E de que ano era o whiskey que estava em cima da mesa da casa do M.?
J – Pergunta com resposta fácil. Do ano em que a fizeram.
E – Piada reles, ao nível das que ouvia no café do teu tio, Jack.
J – Um aparte. Gostava de voltar à Silveirinha, à procura daquelas cobras perigosas que via quando era puto, quando ia lá aos fardos com a minha mãe. Podíamos ir lá um dia de bike, quando vieres de férias.
E – Estou já a caminho, mit mein bike.
J – Estás a falar pouco de Berlim. O que se passa? Já não faz sentido sem a Annika?
E – Jack, eu já não estou nessa cidade há colhões.
J – 'Tás a gozar?
E – Quem sabe…
J – Caramba, Ed, estás na Póvoa do Forno a viver num atelier que construíste no aido dos teus pais e não me disseste nada?
E – Será? Bem, vou ter que ir. Não te esqueças que estou a caminho…
Skypo off-line
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