sexta-feira, 13 de abril de 2012

No SKYPO...

Jack – Aviso já que não te quero ver.

Ed – Há pouco para ver. Perdi a cabeça.

J – Literalmente?

E – Sim. Eduardo Mãos de Tesoura “perdeu” a cabeça por iniciativa própria.

J – Parece um título de notícia bizarra. Onde pára a tua pobre cachola?

E – Vendi-a no mercado no sábado passado. A uns capitalistas que andavam à procura de cérebros. Olheiros de cérebros com olhos de visionários…

J – Esse negócio de cérebros… Próximo passo: Quando vendes o pescoço?

E – Para que serve um pescoço? Já topaste que o pescoço ainda é menos requisitado do que o rabo, quando a malta se atira ao frango?

J – Eheh. E eles não se assustaram com as tuas big hands?

E – Nada disso, disseram-me “fizeram um óptimo serviço, foram competentes q.b.”.

J – Olha, afinal quero mesmo ver-te. Liga a webcam.

E – Não tenho câmara. Até parece que estás a duvidar da veracidade da história.

J – Na verdade gosto de ver corpos dilacerados.

E – Que imagem poética e ao mesmo tempo que pensamento tão psycho, Jack! Vai ao caixote de lixo mais próximo ver se encontras por lá a minha cabeça. Talvez a possas vê-la em directo. Ou andará ela a rolar por aí, como aquela do Bob Peru no Wild At Heart?

J – Oh, Ed, vai ver se eu estou na China.

E – A trabalhar numa fábrica cinzenta com criancinhas cinzentas, quinze horas cinzentas por dia cinzento?

J – A estar lá, talvez já só seja um daqueles robôs como aqueles que a FoxxConn encomendou para substituir os humanos na linha de produção para poupar guita. E talvez já não tenha sensibilidade humana para olhar para aqueles meninos e achar que estão a ser explorados e violentados.

E – Deixa-te de balelas políticas e conta-me como foi, então, a Páscoa na Póvoa do Forno.

J – Oh, contei-te parte por sms. O resto é aquilo que sabemos: a cruz familiar, a cruz de ter nascido numa família que esperava que fosse um bom cristão como eles. Saí-lhes uma peça de roupa com defeito. Beijei os pés do Cristo para não me chatearem, depois de ter pensado fazer o contrário por coerência. Parece que custou menos do que se não beijasse e estivesse lá apenas de corpo presente. O cinismo compensa socialmente. É triste, mas eles preferem isso a terem que se confrontar com a peça de roupa, engelhada, com defeito. Voltando aos pés do homem, pareceu-me a parte do corpo menos acarinhada. Acho que tive piedade dos pés dele. Ou d’Ele, como dizem eles (com minúscula).

E – E topaste se alguém lhe beijou a “zona pública”?

J – Deu-me ideia que é a parte preferida dos teus conterrâneos, Ed Ude.

E – Sempre achei que havia ali muita gente reprimida… e fixada n’Ele.

J – Enxugar-lhe as lágrimas dos olhos, beijar as partes baixas para ver se realmente o excitam e ressuscitam. Deve ser isso.

E – E Cristo ressuscitou, Aleluia!, Aleluia!?

J – Eles dizem que sim, mas acho que não “suscitaram” o estímulo suficiente para o homem ressuscitar. Pelo menos, não o vi a largar a cruz para se fazer à vida, literalmente.

E – E de que ano era o whiskey que estava em cima da mesa da casa do M.?

J – Pergunta com resposta fácil. Do ano em que a fizeram.

E – Piada reles, ao nível das que ouvia no café do teu tio, Jack.

J – Um aparte. Gostava de voltar à Silveirinha, à procura daquelas cobras perigosas que via quando era puto, quando ia lá aos fardos com a minha mãe. Podíamos ir lá um dia de bike, quando vieres de férias.

E – Estou já a caminho, mit mein bike.

J – Estás a falar pouco de Berlim. O que se passa? Já não faz sentido sem a Annika?

E – Jack, eu já não estou nessa cidade há colhões.

J – 'Tás a gozar?

E – Quem sabe…

J – Caramba, Ed, estás na Póvoa do Forno a viver num atelier que construíste no aido dos teus pais e não me disseste nada?

E – Será? Bem, vou ter que ir. Não te esqueças que estou a caminho…

Skypo off-line

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Dialog Zwei

Chegada a Berlim. Encontro meia dúzia de meses depois de um rendez-vous de três quartos de hora em Lisboa...

Ed – Olha, o puto. Tanto cabelo branco? This is not New York, but this is Berlin. Willkommen Sie!

Jack – Estou velho. Sinto-me com mais de mil anos. Mas dizem-me que os cabelos brancos me dão um certo charme. Mulheres e homens. Ajudas-me a levar esta mochila de escuta?

E – Olha, o escuteirinho! Não eras tu que não gramavas aquilo? "Sempre alerta para servir" é coisa de subordinação à autoridade...

J – Traumas. Levei porrada, tinha que ir à missa e andar com um uniforme parolo. Mas era sempre eleito secretário da equipa, às vezes guia.

E – Acho que darias mais para a escrita do que para liderar um bando de miúdos barulhentos.

J – Ya. Mas mudemos de assunto. Estamos em Berlim, não na Póvoa de Forno ou na Palhaça.

E – Olha, digo-te que tenho saudades do Abrigo.

J – O Shelter agora está fechado. Depois da rusga, ninguém pegou mais naquilo. Má fama…Ninguém o ama. Sabes como é!

E – Nem as pegas? Pena… As empalhadas e as arepas eram um must.E o karaoke... Lembras-te? O CP Garanhão, cantaste o "I Feel Good". Brown, James Brown.

J – Falemos é do futuro. Aborrece-me a nossa relação começar a cingir-se a memórias, a recordações da treta. Berlim não é o futuro, o El Dorado dos artistas?

E – Berlim é o que tu quiseres. Podes aprender turco para além do pita shoarma com miúdas belíssimas, cuspires em cima das estátuas do Marx que ninguém te faz mal. Construir e destruir novos muros. Ires a uma galeria de arte e dizeres que és um happening chamado “Visitante de doentes e de exposições”. E a Merkel…

J – Olha, conheces a Lúcia Sigalho? Viveu na minha casa da Bica. Aparecem na nossa caixa de correios cartas das Finanças a toda a hora e convites para inaugurações de expos. Já pensei rapar os cabelos, fazer-me passar por ela e andar a comer à pala desses eventos sociais. Inovar, desenrascar-me em tempos de crise. Tenho que sobreviver naquela cidade…

E – Vou-te levar ao bunker onde trabalhei.

J – Pera aí, Ed Ude. Vamos levar as cenas a casa.

E – Qual casa? Eu moro na rua.

J – Porque não me disseste?

E – Tenho wireless e tudo. Sou um sem-abrigo hi-tech.

J – Estavas sem guita para a renda? O dinheiro dos pratos gourmet não chegava?

E – Também, mas quis experimentar sensações novas. Andava a passar-me com a zona de conforto que era o meu quarto. Precisava de respirar.

J – Não apanhas rapa?

E – Fazemos umas fogueiras às vezes. Outras vezes bebo aguardente para me esquentar.

J – Agora também bebes coisas pesadas?

E – Digamos que tenho vinho a estagiar no meu corpo.

J – Um estágio de quanto tempo?

E – É tal como os precários. Sempre a estagiar.

J – Ah, ah. Mais vale rir do que... Então, e as artes?

E – Agora só me dedico à arte de viver. Essas artes de que falas são tudo artifício, construção. Cansei-me. O contrário da liberdade.

J – Mann, Herr Conceição, onde deixo, então, as minhas cenas?

E – Vamos passar pela Füsserstrasse. Deixamos lá as coisas com o Sigmund, o meu companheiro de strasse e de traça.

J- Quem é? O Freud não ressuscitou, certo?

E – Ah, ah, cromo. Não. O Sigmund diz que é louco, mas ao pé de nós é uma convençãozita, uma viagem para turistinha.

Já a caminho do bunker, depois de deixar as tralhas junto às barbas do Sigmund, que dormia um sono profundo.

E – E a Rosselini?

J – Penso que está a hibernar. Morreu para o mundo. Pelo menos para o meu mundo. Nunca mais me respondeu às chamadas.

E – Se calhar, as chamadas do Outro, com maiúscula, são prioritárias. Senão mesmo exclusivas.

J – Não sejas mauzinho, seu ateu tardio. Olha, por falar nisso, no outro dia fui ver a Morte de Judas à Cornucópia. Era um monólogo com o Dinarte. A versão de Judas Iscariote da entrega de Jesus, pela voz do próprio, do apóstolo traidor… Ou nem tanto. Muito contemporâneo, com Judas a dizer da sua justiça, a ridicularizar os milagres e Simão Pedro.

E – Ahh, não te disse. Meti-me de novo no teatro. Agora andamos a fazer um Brecht.

J – Pera aí. Não tinhas deixado as artes?

E – Descobri que o teatro é compaginável com a arte de viver, ars vivendi, a única que aceito hoje para mim.

J – Não sei é se eu aceito essa contradição. Essa justificação parece um pouco forçada.

E – Forçada é a mentira. O teatro é libertação, é verdade, é pureza.

J – Hei, Ed, és mesmo tu? Mas tu converteste-te a alguma seita?

E – Seita de Meita, o Onanismo ao Poder, JacKerouac.

J – Vejo que estás ao rubro. Maio de 68 tardio… em 2012?

E – Rubro estava o sangue da minha Marie Avant La Lettre depois de ter ido à máquina... à guilhotina. Coitada!

J – Bem, ‘tou à rasca. Preciso de mijar. Onde é o WC mais próximo?

Conversa #1

Numa indústria de sequelas baforentas
A café queimado.
Num buraco alado,
Num céu sem fundo,
Onde os foguetões-do-amor se esbatem
enternecidos pelas luzes da cidade,
Jaze:
O tumulto reivindicador de uma
saudade perdida.
Num contra a parede
Sem efeitos secundários
despejo o meu ego
e
Jack aloja-me na cabeça
uma ideia.

Desfaço-me de preceitos
preconceitos, pré-ó-qualquer-coisa
ditado pelo taxista que me conduz à Bica.

"Toma lá disto,
"Desfaça-se por aí, oh turista maldito, despeja os bolsos que este pais precisa"
- diz o Taxista.

Ed - Obrigado pela boleia - e meia dúzia de palavras-poema, porque é sempre lindo ouvir um taxista às 2h da madrugada.

Jack, espera-me na rua como quem espera em Alfama por lume...

... para acender o cigarro e ouvir um fado emanar de uma qualquer janela

Ed – A máquina de escrever?

Jack – Atirei-a pela janela! Estava vazia de palavras. (Pausa). E eu cheio delas.

E – Entramos? Cá fora está frio!

J – Ah, Ed, o frio nunca fez mal a ninguém, pelo menos não aqui na Bica. Tens assim tanta ânsia de entrar?

E – Tenho os pés frios e já não comemos uma empalhada faz tempo.

J – Ok, bebes um fino ? Ou vinho? Agora bebes mais cerveja, não?

E – Quem é a miúda gira que te sorriu, Jack?

J – Não sei! Ela está sempre aqui. Sorri a todos! Prefiro manter o glamour de não saber quem é!

E – Sempre aqui?

J – Ya!

E – Já te tornaste num autóctone!

J – Até mudei de nome.

E – E a mercearia?

J – Voou! Não queria estar mais comigo. Antes, aprendeu as palavras como “pseudo” e “ludibriante”

E – Atirou-tas à cara e foi-se?

J – Deu-me um beijo antes e pediu desculpa com os olhos! Dei-lhe asas e ela… tu sabes!

E – Sei, mister Jack, sei. É sempre assim, espremem-te e depois flutuam para longe. Dizem-te que és grande demais, que não te querem atrasar. E que não lhes damos atenção. Pausa. No fundo, são elas que empurram e nem se apercebem…

J – Mas a melancolia não é maldita, a felicidade é que é.

E – Proust a isso, Jack.

J – Já paravas de me chamar Jack!

E – Olha lá, e o bacano da guitarra? Já bazou?

J – É só às terças. É como por lá, pelas tuas bandas. Também não é só às terças?

E – Ya, é, é!!! E mais…?

J – Mais, menos, more, less.

E – Pára lá com os teus jogos de palavras, Jack! Não tenho aqui o gravador de MP3.

J – Não.

E – Não, partiu-se no voo! É sempre a mesma merda! E como se eu não soubesse! Atiram-te com as malas, estão-se a lixar!

J – Se calhar são mal pagos e vingam-se nos burgueses!

E – Burguês és tu, puto semi-alface que vive na zona burguesa-ó-fashion-cultural! Vim numa low-cost! Agora é como andar de táxi! Só falta é a conversa com o piloto sobre o Benfica ou Sporting! Ou melhor, Manchester!

J – Já ouviste falar no António da Bica?

E – Esse não és tu? Tu é que disseste que até já tinhas mudado de nome! O que é que o tipo faz?

J – É a encarnação do António d’ “A Janela”, do Pêra! Parece que saiu directamente da TV pr’á Bica.

E – E além disso, o que é que ele tem de especial? Fode a vizinhança toda?

J – Isso e muito mais. O tipo é poético.

E – Cá para mim o António és tu. Ou então só existe na tua cabeça. Andas a escrever algo novo?

J – Não, o gajo existe mesmo! Ainda o vamos ver hoje entrar pela porta! E a tua Marie A?

E – Assassinei-a! Ficou velha – Já não escrevia nada! Perdeu a juventude, já nem álcool lhe valia.

J – Era uma empalhada e dois finos, s.f.f.

E – Agora também “micas” empregadas de mesa? Isso é mais eu do que tu!

J – Ajudei-a uma vez com as compras. Foi só isso!

E – E ela contou-te a vida toda!

J – Shhhh. Tem um amante e um namorado que lhe bate. Que merda! Apetece-me esmurrar o nariz ao tipo sempre que o vejo.

E – Violência, mister Jack? Vindo de ti, nunca pensei. Disseste amante? Não me digas que és tu? Agora dedicas-te a algo mais do que às tuas folhas amarelas onde rabiscas romances inconclusivos? Ou andas a precisar de inspiração? O absinto à tampa já não te ajuda?

J – Eu não sou príncipe encantado.

E – Ou andas a espreitá-la pela janela? Cá para mim ela nem existe.

J – Quem gosta de observar pela janela és tu! Observar e mijar do 4º andar!

E – Oh, isso já foi há anos… Já não sou puto rebelde cheio de lascívia.

J – Agora é só lixívia.

(Silêncio)

(Gargalhadas)

J – Adivinha quem acaba de entrar?

E – O António da Bica? Não vejo ninguém.

J – Não, o Tó Trips. Deve cá vir deixar o novo álbum pata deixar a tocar.

E – Tó é de António, não?

J – Deve ser!

E – Já o entrevistaste para a tua “Super Educativa”?

J – Não, apenas cruzámos olhares algumas vezes. Somos as caras da Bica.

E – Uhhh… Pseudo! PEOPLE ARE STRANGE, WHEN YOU ARE STRANGER.

J – FACES LOOK UGLY WHEN YOU ARE ALONE

E – Ainda tocas guitarra?

J – Pouco. Os dedos doem-me no Inverno. Tu sabes!

E – Hum!!!

J – Obrigado

E – Gracias

J – Não devias dizer DANKE SHÖN?

E – Isto é a Bica, não é Berlim.

J – Bicarlim…

E – Proust, Jack! Ao surrealismo!

J – Ao arroz e batatas!

E – A ti, Jack, e à Bica!

J – Já paravas de me chamar Jack.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Conversa #1

15 de Novembro de 2021

Numa industria  de sequelas baforentas
A café queimado.
Num buraco alado,
Num céu sem fundo,
Onde os foguetoes-do-amor se esbatem
                                                                 enternecidos pelas luzes da cidade,
Jaze:
O tumulto reivindicador de uma
saudade perdida.
Num contra a parede
Sem efeitos secundários
despejo o meu ego
e
Jack aloja-me na cabeca
uma ideia.

Desfaco-me de preceitos 
preconceitos, pré-ó-qualquer-coisa
ditado pelo taxista que me conduz à Bica.

"Toma lá disto"
"Desfaca-se por ai oh turista maldito, despeja os bolsos que este pais precisa"
- diz o Taxista!

Ed Ude - Obrigado pela boleia, e meia duzia de palavras poema. porque é sempre lindo ouvir um taxista às 2h da madrugada.
Jack, espera-me na rua como quem espera em Alfama por lume... 

(Agora tens de ser tu a transcrever, lembro-me de comecar a alterar o texto aqui!)